A Perseguição a Igreja no Japão
(Tirado do Livro "História Eclesiástica" de "São João Bosco")
Enquanto era Deus glorificado em seus santos em todas as partes do mundo suscitava o inferno, no Japão, uma perseguição longa e cruel. Via-se neste vasto império, trazido a fé pelos suores e fadigas de São Francisco Xavier, crescer diariamente o número de crentes e aumentar de modo extraordinário a Piedade o fervor. Quando, porém subiu ao trono do Império Taicosama, quis afastar do seu reino uma religião que contradizia a suas brutais paixões. Pelo que castigava com o desterro e até com a morte, a quem não renunciasse ao Evangelho. Começou a perseguição na mesma corte imperial, e Ucondono, general-chefe do exército, foi a primeira vítima. Os Jesuítas, os Franciscanos e os Agostinianos, caíram logo sob seus ferozes golpes. Mas nem por isso deixou de triunfar a graça de Deus, e ainda então se viram os exemplos de heroísmo dos primeiros séculos da Igreja. Velhos e Jovens, nobres e plebeus, arrostavam com tal firmeza os mais atrozes tormentos, que o imperador viu-se forçado a dizer: "Há verdadeiramente alguma coisa de extraordinário na constância dos Cristãos". As próprias mulheres preparavam seus vestidos de festa para honrar o dia de seu triunfo, pois, assim com transportes de júbilo chamavam o dia marcado para o martírio. Conduziam, certo dia ao suplício a três tenros jovens, entre os quais se achava um, de doze anos, chamado Luiz, o qual comoveu de tal maneira ao verdugo, que este se prontificou em pô-lo em liberdade e lhe fez as mais lisonjeiras promessas. Luiz, porém, respondeu-lhe: "Guardai para vós essa compaixão que mostrais para comigo, e tratai, antes de conseguir a graça do batismo, sem o qual não podereis evitar uma eternidade de sofrimentos". Foram empregados os mesmos ardis com outro chamado Antonio, e prometeram-lhe honras e riquezas da parte do Imperador. "Não, não, respondeu sem demora, o amor da fortuna: não tem para mim mais Eficácia do que os suplícios eternos; a maior felicidade que posso ter, é a de morrer na cruz por um Deus, que morreu nela por mim". Ao chegar ao lugar do suplício, aqueles magnânimos jovens entoaram cheios de alegria o salmo Laudate pueri Lominum; e foram crucificados com outros vinte e seis mais, mostrando uma firmeza que fazia estremecer aos próprios verdugos. Ano 1597. Entre aqueles confessores da fé, encheu a todos de assombro um menino de seis anos, natural de Tingo, que se chamava Pedro. Seu pai já tinha sido condenado à morte e Pedro estava compreendido no mesmo decreto. O terno menino ao ouvir ler a sentença, exclamou: "Oh! Quanto me agrada isso!" Esperou com impaciência que lhe vestissem o melhor traje, e logo, cheio de alegria, tomou pela mão o mandarim e se dirigiu ao lugar do suplício. O primeiro objeto que se apresentou ante seus olhos foi o corpo de seu pai, nadando ainda em seu mesmo sangue. Não mostrando a menor admiração, aproxima-se do cadáver, prostra-se, junta suas inocentes mãozinhas, abaixa a cabeça e tranquilamente espera o golpe da morte. Ante aquele espetáculo, levanta a multidão um confuso clamor, e não se ouvem senão gemidos e prantos. O próprio verdugo comovido, atira sua espada e sai soluçando. Substituem-no outros dois e se comovem igualmente. Foi, pois, necessário recorrer a um escravo, que com mão trêmula e inexperiente, descarregou tal quantidade de golpes sobre o pescoço e ombros da terna vítima, que a despedaçou. (...) A perseguição suscitada contra os cristãos por Taicosama, pareceu apaziguar-se algum tanto com sua morte e a de seus sucessores. Porém no reinado de Hogun-Sama e de seu filho, recrudesceu ainda mais,e tornou-se mui atroz. Foram postas em obra, para fazer apostatar os cristãos todas as barbaridades que se puderam inventar. A uns, arrancavam as unhas, a outros furavam os braços e as pernas com verrumas; a muitos metiam sovelas por debaixo das unhas, e repetia-se o tormento durante vários dias consecutivos; suspendiam-os sobre poços cheios de víboras; atavam em seus narizes canos e tubos cheios de enxofre ou de outras matérias de cheiro insuportável, e logo ateavam fogo nelas, e sopravam para fazer fumaça e afogá-los, causando assim sufocações, convulsões e dores indizíveis. Mas não parava ali sua crueldade, pois metiam dentro de seus corpos canos pontiagudos, e suspendendo-os, flagelavam até descobrir-lhes os ossos. Para lacerar ao mesmo tempo o corpo e o coração das mães, davam golpes nelas com as cabeças dos próprios filhos, agarrados nos pés pelos verdugos, que, tanto mais aumentavam sua crueldade quanto mais agudos eram os gritos daquelas inocentes vítimas. Desde o ano 1597 até 1650, calcula-se que foram martirizados mais de um milhão e duzentos mil fiéis, e com tal gênero de tormentos que em sua comparação, a pena do fogo era considerada como uma mercê. A justiça de Deus, porém, não deixou, como nos primeiros séculos da Igreja, de se manifestar contra os autores de tão horrenda perseguição. Um daqueles sobre o qual mais se fez sentir, foi Brogondono, príncipe da Himbra, que a todos tinha excedido em crueldades. Ao sair de uma conferência, em que se tinha decidido exterminar o cristianismo, foi surpreendido por agudas dores intestinais que o faziam dar horrorosos gritos e sofrer espantosas contorções. Causava horror ver a agitação de seu corpo, as espumas que lançava pela boca, os gritos que dava e as instâncias que fazia para tirarem de sua presença a um cristão armado de uma foice que, segundo dizia, se achava diante dele ameaçando-o continuamente. Caíram-lhe todos os dentes, e acendeu-se-lhe um fogo tão abrasador em seu corpo, que parecia ferver o sangue de suas veias e a medula de seus ossos. Conduziram-no a um banho de água quente onde fizera perecer a muitos cristãos; porém, apenas o mergulharam nele, ficou como cozido e morreu miseravelmente. Outros muitos perseguidores terminaram sua vida de modo a perceber-se que se viu claramente neles o sinal da ira de Deus. Todavia, a perseguição não cessou senão quando se acreditou, que mortos já todos os ministros do santuário e extinto o clero, também se tinham extinguido todos os cristãos. Mas estavam muito enganados. A fé cristã se manteve naquele império ainda sem eclesiásticos; e poucos anos há, tendo novamente entrado os missionários naqueles países, encontraram com admiração, famílias e povos de bastante consideração, inteiramente cristãos.

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